O prometido é devido e aqui estou eu a deixar um post sobre o Dia de S.Valentim conforme prometi.
De facto, não podia deixar “passar em branco” a experiência engraçada de que hoje fiz parte, numa das minhas aulas, ao ver-me incumbida de ler umas cartas dirigidas aos rapazes e raparigas da turma…uma experiência engraçada, admito, e fartámo-nos de rir todos genuinamente daquelas palavras. Todavia, a experiência que se podia ter ficado por aí assumiu outros contornos ao tornar-se, para mim, objecto de reflexão filosófica. Eu sei, eu sei! É um terrível “vício” meu este de estar sempre a trasformar as mais “normais” situações em objecto de reflexão filosófica. Terá que ver, certamente, com um “vício de profissão”, mas quem me conhece melhor atribui este “vício” a um traço da minha personalidade e pronto! Pronto! Já sei! Já sei também que falo muito. É verdade. Se não falo, escrevo; se não escrevo, falo. Aqui vai, então, a “caseira” reflexão sobre a evolução dos (des)afectos…
Viajar até aos momentos típicos do enamoramento é algo alucinante, essencialmente fazer tal viagem através do brilho dos olhos dos outros. Assim nascem os afectos que se materializam, consubstanciam, em gestos como este, o de escrever cartas num dia como o de hoje. A troca de olhares, a mística de duas mãos que se entrelaçam, um sorriso tímido e a eternidade instala-se! É o momento da fusão, do abismo, da estrada sem retorno em que dois seres distintos caminham, por motivos vários, numa mesma direcção.
Os instantes vividos tornam-se eternidade partilhada numa cumplicidade densa que se veda ao mundo. Todavia a ameaça paira no ar; a ameaça de “coisificar” o Outro (filosoficamente falando, é mesmo este o termo), da redução do Outro, reunir pedaços de identidade própria a algo que esteja ao meu dispôr, cumprindo um desígnio que atribuí. E assim o Outro ou se deixa reduzir a mim, ou me escapa por entre os dedos. Ao reduzi-lo a mim, ao transformá-lo em objecto de amor narcísico, perco a consciência da dádiva, da partilha e o Outro desvanece-se perante o meu olhar em mais um pedaço de mim, ou então recusa-se; recusa-se a fazer parte desse cenário.
Estarmos despertos para essa ameaça eminente, para o perigo efectivo que constitui, é a mensagem que deveríamos deixar registada no dia de hoje. Pensar que o Outro não é muito diferente, hoje, daquilo que já foi…pensar que, possivelmente nessa ânsia de tudo reduzir a pó numa necessidade premente de chegar a algum sítio seguro, nos esquecemos de respeitar o espaço, a diferença. Assim, aquela borbulha que lhe era tão própria, tão pessoal, tão única, tornou-se numa terrível verruga a eliminar já, para sempre, seja de que forma for!!! Que borbulha horrível!, pensamos nós, olhando para lgo que já despertou no passado um doce inquietação e um sorriso…
É isso. Perdemos, muitas vezes, a noção do caminho que nos propusemos seguir. Por vezes acabamos por perceber, no fundo, no fundo, que estávamos enamorados não daquela pessoa, nem de nós mesmos, mas do próprio estado de alma em que tal sentimento nos faz mergulhar…