Arquivo de Junho, 2009

21
Jun
09

O que nos espera?

Partilho, aqui, este belo texto, escrito por alguém de quem já tive oportunidade de falar várias vezes e que me marcou muito como professor e como pessoa: o Professor e Padre Anselmo Borges que escreve semanalmente no DN. Soube, como ninguém, apelar ao questionamento e fazer-me procurar o que julgava impossível.

Que nos espera?
por Anselmo Borges

Mesmo os mais distraídos colocar-se-ão, nas situações-limite, as velhas perguntas: donde vimos?, para onde vamos?, quem somos? Porque a realidade nos aparece por vezes exultante e, outras, horrorosa, e morreremos, perguntamos: o que é verdadeiramente?, qual o sentido da existência?, que andamos cá a fazer?, que nos espera?
Cada um de nós vivencia-se a si mesmo como presença de si a si mesmo: sou eu e não outro. Coincidimos, portanto, connosco mesmos. Mas, por outro lado, experienciamo-nos como não plena e totalmente idênticos. Somos nós mesmos e chamados a sermos nós mesmos, pois estamos ainda a caminho de nos tornarmos nós mesmos.
Precisamente deste paradoxo de sermos e ainda não sermos adequada e plenamente surge a nossa inquietação radical e a pergunta que nos constitui: afinal, o que somos?, quem somos?
Eu sou eu, mas ainda não sou o que serei. Cá está, portanto, a pergunta ineliminável: então, o que sou e quem sou? E que devo fazer para ser finalmente eu?
É assim que a pergunta pelo sentido não é uma questão adjacente, que pode colocar-se ou não. Ela é constitutiva do ser humano enquanto tal, questão fundamental da Filosofia, como viu A. Camus.
Sentido tem a ver com caminho, viagem e direcção – nas estradas, por exemplo, encontramos placas em seta a indicar o caminho e a direcção para alcançar uma meta, um objectivo, um destino. Qual é então o caminho e o sentido da existência humana? O que move a minha vida?
O Homem vem ao mundo por fazer e quer queira quer não tem essa tarefa constitutiva: fazer-se a si mesmo. E tanto podemos fazer de nós uma obra de arte como fracassar.
Einstein constatou que quem sente a vida vazia de sentido não é feliz e sobrevive mal. O Homem não pode viver sem sentido. Aliás, a existência humana está baseada na convicção do sentido. A sua própria negação ainda o afirma. No limite, não é possível o “suicídio lógico”, pois quem pegasse numa arma para suicidar-se, porque tudo é absurdo, negaria o absurdo e afirmaria o sentido.
O famoso psiquiatra Viktor Frankl, fundador da logoterapia, mostrou, a partir dos estudos que realizou com base na sua terrível experiência nos campos de concentração nazis, que a exigência mais radical do ser humano é o sentido, razões para viver. Contra Freud e Adler, no mais fundo de nós, mais do que a exigência de prazer e de poder está a vontade de sentido.
Nos campos de concentração, verificou que sobreviviam mais aqueles que ainda tinham um sentido para a existência: reencontrar a família, realizar uma obra, lutar para que nunca mais acontecesse o intolerável. O que significa que o sentido não está em nós, mas fora. Se estivesse em nós, não se colocaria a questão, pois estaria sempre presente. O sentido está no encontro com o mundo e com os outros: é saindo de si que o Homem vem a si. Dá um exemplo: quando se começa a ver pequenas manchas à frente do olho, é bom ir ao médico, pois está doente: o olho é intencional, isto é, não foi feito para se ver a si mesmo, mas o que não é ele. Paradoxalmente, só saindo de si é que o Homem encontra sentido. É o amor que dá sentido. Por isso, sente a vida como tendo sentido quem vê a sua existência reconhecida. A nossa vida não tem sentido, quando não vale para ninguém.
A existência caminha de sentido em sentido – o que vamos realizando. Mas, um dia, somos confrontados com a pergunta: qual é o sentido de todos os sentidos? Este é o núcleo da questão religiosa: o quê ou quem dá sentido último à existência, para que não fique na situação da ponte que não encontra o outro lado, a outra margem? Porque, sem o Sentido último, os caminhos de sentido não vão dar a lado nenhum.
“Conhecer Deus” era a maior esperança para João Bénard da Costa, que, por isso, podia dizer: “Acredito que esta vida não pode acabar aqui: nada faria sentido, para mim, se assim fosse”.

19
Jun
09

Melancolia…

…Hoje fui vigiar um exame do 9ºano…enquanto dava aos alunos algumas instruções para a realização do exame, olhava para aquelas criaturas e pensava “será que me vão entrar pela sala dentro em Setembro?”. Começar do zero. Não me pareceram que quisessem pensar muito…um olhar distante…será que os meus alunos também tinham este olhar na 1ª aula e eu é que não me lembro??? Será que também olharam e pensaram..”quem é esta? professora de quê???”…
Invadiu-me uma enorme melancolia…as aulas de que já tenho saudades e ainda acabaram há dias…os alunos…até dos sermões que às vezes passava tenho saudades!…
Enfim…”the show must go on”…

04
Jun
09

Em que mundo queremos viver???

Ora, cá está um vídeo que vale a pena ver e…pensar sobre as nossas atitudes, os nossos valores, o que desprezamos, o que valorizamos…em que mundo vivemos???

http://www.cultureunplugged.com/play/1081/Chicken-a-la-Carte

03
Jun
09

Aos alunos que “deixo”…

Foi difícil. Fiquei com um nó na garganta. Foi com bastante dificuldade que segurei as lágrimas que se insinuavam. Pensei que estava preparada, mas não estava. Não se está nunca, penso. É difícil deixar voar por sua conta os passarinhos que (também)cresceram sob as nossas asas. Tem-se sempre medo que eles se percam a voar, ou simplesmente que desistam de o fazer. Mas está na hora de voarem sozinhos e experimentar a beleza do voo picado. Está na altura de testar as asas. Resta-me esperar que nos encontremos algures, nesse enorme céu, onde as asas ganham vida e as perguntas se tornam o frio que as faz vacilar. As respostas, essas, estão ao alcance da nossa vontade e da nossa persistência. Voemos, então.